Terrra de Falta de Justica
Há uma passagem na vida de Jesus Cristo que eu questionava como poder ser possível de um Deus de piedade para todos os seres vivos, mesmo os mais imundos. Trata-se do seu expelir os demónios dos corpos de um possesso e os ordenar para os corpos de uma vara de porcos que por ali havia, os quais de uma forma selvagem se despenharam indo encontrar a sua morte.
Hoje, depois de observar e analizar a humanidade chego ao ponto em que me pergunto, o que será mais cruel, será o induzir os espíritos de demónios para uma vara de porcos e aí fazer com que se despenham para a sua morte, ou será antes o expelir os espírito dos porcos e os lançar nos corpos e mentes dos homens e mulheres dos nossos dias? Induzidos por muita imundice, trufas de devaneios e de vaidades, temos sim uma sociedade emporcalhada por drogas, maus hábitos e costumes, intoxicada pela ganância de ter, parecer, mostrar; por invejas, injustiças, soberbas; entre outros males e vícios da modernidade.
Ouve-se por exemplo nestas nossas ilhas ‘’paraísos,’’ de atrocidades e de falta de justiça alarmantes que todos cochicham e ninguém ousa falar alto, paralizados pelo medo de represálias de macumba e diabos a quatro. Como numa realidade de penitenciária à Alcatrás, há uma forma de solidariedade da maldicência, da provocação, da inveja, do despeito e da falta de respeito.
Que há um ambiente de muitos sorrisos e de alegria doentia, de certo, mas nem todo o sorriso ou alegria pode ser puro ou franco; muito se pode esconder no sorriso ou na festa. Há sorrisos, especialmente às portas das tascas e tavernas da nossa terra, de baratas brancas, de espiritos mesquinhos, embriagados, nauseabundos para quem toda a porcaria tem uma imensa graça e vale quem mais porco e imundo fôr.
Ouve-se por exemplo de casos de fogo posto como se fala de tremoço ou de alguma tourada de touro ou de um capinha mais afoite e ardem propriedades e há gente que sofre, há vítimas, há mortos até e escombros, e a polícia não topa por nada; nada quer ver, ouvir ou dizer--passa adiante. Podia mencionar casos, mas torna-se perigoso. Vivemos numa sociedade de medo; do não te atrevas a saber ou a fazer saber o que está a acontecer.
Depois há aquela de alguém que se aproveita da morte de uma outra pessoa para condoer as pessoas e as fazer participar numa doação que se estende quase pela ilha toda em nome da família do falecido; sem essa família ter conhecimento. De porta em porta colectou uma bela quantia que depois meteu no bolso.
Em nome da caridade rouba-se, prega-se calote, sem caridade difama-se, ri-se, emporcalha-se a sociedade com lama de toda a qualidade desde abusos, violência doméstica, moléstias e perversão de toda a qualidade possível; exagêros que nem parecem reais, mas sim de um reino de porcos e cães à solta entre gente humana.
Pensarão muitos que isso é de certo uma forma exagerada de se apresentar as coisas, mas gota a gota elas vão acontencendo ente risinhos e festas.
A semana passada por exemplo uma pessoa nossa conhecida com um negócio que comprou há dois anos a pessoas pouco honestas, que teve que pagar por contas que não se fazia e julgava tudo pago e resolvido, por isso tinha contratado um advogado, quando sem mais ter sem não, sem aviso, telefonema, ou conhecimento algum do que se estava a passar foi vítima de uma cilada das mais traiçoeiras. Assim a semana passada de surpresa aparece-lhe à porta uma equipa formada de polícia, advogados, gente de tribunal prontos para lhe limpar o negócio e o mandar para a Conchinchina.
O homem surpreendido por essa táctica fascista, comunista, chamem-lhe o que quizerem, mas de certo de país da república das bananas, caiu não chão espumando e retorcendo-se com princípio de acident vascular. Vem a ambulância, os ânimos das ‘’autoridades’’ armadas em caninos justiceiros, passaram de brutais e impiedosos a cobardemente delicados e gentis para com os familiares; e daí partirem de caudas entre as pernas, sabendo no intímo de uma injustiça cívica de bradar aos céus, de uma forma de agir que só nos Açores e em Portugal pode acontecer.
Ninguém pensou em avisar ou preparar o homem e a família para o que se estava a passar. O próprio advogado usou de falsidade. Pago pela tal companhia permitiu este desenlace desumano e nogento. Houve simplesmente uma traição a um cidadão, que lavrador que era investiu tudo o que tinha numa companhia falida e com grandes dívidas que ele julgava já saldadas. Ninguém, por solidariedade ou mesmo professionalismo jurídico o informou, ou mandou qualquer aviso que fosse. De uma forma ingénua, à acoriana, daqueles Açorianos que ainda existem por aí, ele culpa-se de ter investido na companhia, que deveria ter continuado com a sua lavoura e não ter caído na ambição de querer melhor ou ir mais alto. Irra, é isso mesmo que amarra a gente da nossa terra neste país que se não ajuda a si próprio, nem consente ninguém ter uma ambição normal e melhor; que logo passam a rasteira e encontram toda a qualidade da lei mais torta que conseguem tirar dos fundos dos seus portefólios do inferno para ‘’lixar’’ o próximo ou fazer vingar eternamente a injustiça nesta terra onde a justiça é torta e retorta a valer.
Amanhã já toda a ilha sabe, e ninguém se demonstra ou acusa a falta de lealdade, o regime de pugnação, do poder aplicado ao soco e pontapé, ainda que só a olho vidrado e palavreado seco e mordaz e de muita falta de humanidade e Cristandade. Os jornais continuarão a fazer tudo luzir e sobressair enquanto a sociedade se afunda nesta profunda jagunçada. É de bradar aos céus e de ferver o sangue!
Ninguém por exemplo move um dedo pelos drogados que vendem droga e fazem um negocião ou o malandro que arrisca a saúde pública. Ninguém investiga a origem do dinheiro de muitos novos ricos, que parece que vivem por cima de uma mina de dinheiro que esbanjam a torto e a direito. Sugam antes o sangue daqueles que julgam poder sugar sem represália, como as hienas e abutres. Depois há o medo, a manha, a falsidade neste país de brandos costumes ou de relances eunucos para quem a vaidade, o luxo e o devaneio, a associação ao belo e bom e forte mais contam; que tentam seduzir e submeter com a sua graça e artimanha do gênero exclusivo; que por isso mesmo estão na cauda do escorpião mais miserável da Europa; de uma Europa que sabe que em Portugal se escondem bácoros.
Depois, ganhou o aborto. Para dizer a verdade para usar da crueldade que se vive nesta sociedade do belo, fino e finório, até podemos aplaudir esse passo que levará a nossa raça a desaparecer em pouco mais de um século. Sem bébés teremos uma geração de proveta; bébés por encomenda, das raças mais finas, plásticas e mulas; por inseminação artificial; assim como já o povo diz e diz bem, não há males que não vêm por bem.
Neste contexto de Fevereiro frio, de pingo no nariz, e desta sociedade modelo da impudência, sem-vergonhismo finalizo convicto de que se fosse eu Cristo, também iria querer expulsar os demónios e fazê-lo da forma mais humanamente cruel possível e os induziria às cobras e jacais, aos morcegos e porcos da Tanzania, aos tubarões, aos lobos e cães selvagens a todo o animal em vias de extinção; era isso mesmo que faria.
Só agora admito que finalmente compreendo esse Cristo dos exagêros das correntes no Templo e esse ter enviado uma manada de porcos desta para melhor; é que ele tinha sede e fome de justiça. Tendo sede e fome de justiça, isso até o levou à cruz. Pregado entre dois ladrões, tomou o lugar de um assassino (Barrabás) e aí mesmo nos afiançou que o seu reino não era deste mundo, mas um reino de paz e de amor; onde estaríamos no mesmo dia da nossa morte, se como com o bom ladrão ainda tivessemos nas veias qualquer pinga de verdadeira empatia, de compaixão, compreensão; de autêntica humanidade.
Silvério Gabriel de Melo

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